Três Lagoas vira polo de empregos, mas enfrenta aumento de pessoas em situação de rua
Crescimento econômico aumenta desafios sociais no município
Três Lagoas vive um momento de forte transformação econômica, marcado pela expansão de grandes projetos industriais na Costa Leste de Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo em que os investimentos movimentam a economia e ampliam a oferta de empregos, o município também enfrenta novos desafios sociais, entre eles o aumento no número de pessoas em situação de rua e de andarilhos que circulam pela cidade.
Dados do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) mostram que a quantidade média de pessoas atendidas mensalmente pela estrutura municipal passou de 122, em 2024, para 146 em 2025. Em 2026, a média chegou a 176 pessoas, representando crescimento de aproximadamente 45% em dois anos.
O aumento também aparece na quantidade de serviços prestados. Em 2024, foram registrados cerca de 1.695 atendimentos mensais. O número subiu para 2.290 em 2025 e alcançou 2.872 procedimentos por mês em 2026, uma alta próxima de 70%.
Expansão industrial e movimentação de trabalhadores
O cenário está inserido em um ciclo de grandes investimentos que movimenta toda a região. Entre os projetos estão a implantação da fábrica da Arauco, em Inocência, as operações da Suzano e a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas.
Por concentrar serviços, comércio, transporte e atendimento público, Três Lagoas acaba funcionando como um dos principais pontos de circulação para trabalhadores que chegam à região em busca de oportunidades.
Parte dessas pessoas chega ao município sem residência definida ou sem contratação garantida. Quando não consegue uma colocação imediata no mercado de trabalho, pode acabar recorrendo temporariamente à rede de assistência social.
Petrobras prevê milhares de empregos com retomada da UFN3
A Petrobras confirmou a retomada das obras da UFN3 em junho deste ano. A previsão da companhia é concluir o empreendimento e iniciar as operações em 2029.
O projeto deverá receber mais de R$ 5 bilhões em investimentos e tem estimativa de gerar aproximadamente 8 mil empregos diretos e indiretos durante a fase de construção.
Segundo a estatal, uma das estratégias para ampliar a participação da mão de obra local será o reforço da capacitação profissional. A Petrobras informou que pretende ampliar o Programa Autonomia e Renda, com cerca de 1.400 vagas em cursos de formação inicial e continuada e cursos técnicos, em parceria com instituições como SESI-SENAI e Institutos Federais.
A empresa também afirmou que acompanha a atuação das empresas contratadas, com exigências relacionadas à responsabilidade social, e mantém diálogo com o Poder Público para acompanhar os impactos e necessidades gerados pelo novo ciclo de obras.
Arauco aposta na qualificação e reforço da estrutura de saúde
Em resposta à reportagem, a Arauco destacou a importância de Três Lagoas para a estrutura regional de comércio, serviços e saúde e afirmou considerar o Projeto Sucuriú um vetor de desenvolvimento para a região.
A empresa informou investimentos de R$ 2,3 milhões destinados ao fortalecimento do Hospital Regional Magid Thomé e do Hospital Nossa Senhora Auxiliadora.
A futura fábrica em Inocência tem previsão de iniciar suas operações no fim de 2027. Conforme a companhia, o empreendimento deverá gerar aproximadamente 6 mil empregos diretos permanentes.
A Arauco também informou que participa de iniciativas de qualificação profissional que têm potencial para capacitar mais de 2 mil pessoas na região, em ações desenvolvidas com o Governo do Estado, prefeituras e instituições do Sistema S.
A empresa esclareceu ainda que a principal estrutura de alojamento dos trabalhadores das obras está localizada em Inocência, onde também mantém uma estrutura própria de saúde. Em Três Lagoas, a companhia possui escritório regional e uma base florestal com mais de 200 colaboradores.
Suzano não relaciona crescimento a suas operações
Procurada pela reportagem, a Suzano informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não responderia aos questionamentos apresentados.
A empresa argumentou que sua operação industrial em Três Lagoas é consolidada e teve início em 2009, passando posteriormente por uma expansão em 2017. Com base nisso, a companhia afirmou entender que o crescimento registrado na população em situação de rua entre 2024 e 2026 não estaria relacionado às suas atividades atuais no município.
Desafio para Três Lagoas
Os números do Centro POP evidenciam que, paralelamente ao crescimento econômico, Três Lagoas precisa lidar com uma demanda cada vez maior por serviços de assistência e acolhimento.
O cenário reúne diferentes fatores, como a circulação de trabalhadores, a busca por oportunidades nos grandes empreendimentos e a concentração regional de serviços na cidade.
Diante desse contexto, o fortalecimento da rede de atendimento e a integração entre empresas, Poder Público e instituições de qualificação profissional aparecem como pontos importantes para que o crescimento econômico da Costa Leste também resulte em oportunidades concretas para quem chega à região em busca de trabalho.
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